A PRESENÇA DO TETRAGRAMA HEBRAICO DENTRO DO SIMBOLISMO DO R.’.E.’.A.’.A.’. (PARTE II)

A PRESENÇA DO TETRAGRAMA HEBRAICO

 DENTRO DO SIMBOLISMO DO R.’.E.’.A.’.A.’. (PARTE II)


Por Ir.’. José Ronaldo Viega Alves

AS QUATRO LETRAS HEBRAICAS NA FORMAÇÃO DO TETRAGRAMA (YHWH - יהוה)

O hebraico é escrito e lido da direita para a esquerda, o que significa dizer que é o sentido contrário à escrita e à leitura das palavras em português, por exemplo.

Na reprodução do Tetragrama logo acima, portanto, a sua escrita e a sua leitura começam do lado direito da página e seguem em direção ao centro da página.

Uma das letras, a letra He ou Hei, aparece duas vezes. São quatro letras, porém uma delas se repete.

Na ordem em que elas aparecem dispostas para compor o Tetragrama, vejamos quais são estas letras:

IOD, YOD ou YUD (י): É a décima letra do ALEFBET (o alfabeto hebraico) e a primeira do Tetragrama. (A primeira do Tetragrama significa dizer que é a primeira a ser escrita). Esta letra pode ser encontrada em sua transcrição com pequenas variações ortográficas, tais como as que acabaram de ser mostradas. A sua pronúncia é de um “Y”, como em yes (inglês) ou “i”.

HE ou HEI (ה): É a quinta letra do ALEFBET. A segunda do Tetragrama. (A segunda a ser escrita e posicionada do lado esquerdo da primeira letra). No português ela é equivalente ao H, porém o som é levemente aspirado, como o H que aparece na palavra house (inglês).

VAV ou WAW (ו): É a sexta letra do ALEFBET. A terceira do Tetragrama, estando posicionada à esquerda da segunda letra. O som é o da letra V, como o da palavra valor.

HE ou HEI (ה): Esta letra já foi descrita logo acima, e ela aparece duas vezes no Tetragrama. A quarta letra do Tetragrama, à esquerda da terceira letra.



O TETRAGRAMA NO GRAU DE APRENDIZ

Anteriormente, no capítulo I, vimos que o Tetragrama já está presente desde o Grau de Aprendiz Maçom no R.’.E.’.A.’.A.’., ainda que de uma forma um tanto velada. Dentro da tradição judaica, o nome de Deus é representado frequentemente pela primeira letra, o YOD, motivado pelo respeito ao sagrado, pela tradição religiosa e como forma de evitar a profanação.

A Maçonaria adota a mesma posição de respeito ao que é sagrado, e a letra YOD é a que pende do dossel.

O TETRAGRAMA NO GRAU DE COMPANHEIRO MAÇOM

Na relação do Grau de Companheiro Maçom com o Tetragrama surge um maior número de referências, sendo que uma delas se relaciona diretamente à questão dos painéis do Grau, eis que o Rito pode determinar algumas diferenças e, nesse caso, podem ocorrer algumas do tipo: a existência de painéis onde, no centro da Estrela Flamejante(4), ao invés da Letra G, aparecerá o Tetragrama. Às vezes as mudanças ocorrem por ocasião da feitura de uma nova versão de um Ritual e Instruções.

Por ocasião da minha elevação ao Grau de Companheiro Maçom, no R.’.E.’.A.’.A.’., o Ritual que recebi apresentava um Painel da Loja de Companheiro onde, no centro do mesmo, constavam as quatro letras hebraicas caracterizando o Tetragrama, enquanto a Estrela Flamejante com a Letra G em seu interior aparecia na borda superior do mesmo painel, um tanto que pendendo para o lado esquerdo da tela. Em versões do mesmo Ritual surgidas depois, o Painel que passou a ser utilizado mostrava a Letra G no interior da Estrela Flamejante, porém situada logo abaixo da janela que estava situada no plano mais alto do painel, entre o Sol e a Lua.

O que podemos inferir sobre o que foi dito acima guarda semelhança com aquilo que está exposto no seguinte trecho que pertence ao Ir.’. Almir Sant’Ana Cruz, citado em seu livro que trata da simbologia dos Painéis, quando ele aponta para um dos seis significados que ele atribui à Letra G:

“Grande Arquiteto do Universo, G.’.A.’.D.’.U.’., God (Deus): a letra G é o mesmo que a hebraica Iod, que traduz o nome do Criador Incriado e Autodivino, fonte de todos os conhecimentos humanos.” (Cruz, 2019, pág. 207)

Voltando ao Ritual e Instruções do Companheiro Maçom, na Terceira Instrução um dos tópicos abordados é intitulado “O Tetragrama Hebraico”, onde se explica o significado de cada uma das letras hebraicas que o compõem. Isso é uma mostra cabal de que neste Grau já existe um cuidado em proporcionar uma abordagem mais detalhada deste símbolo.

Um dos grandes estudiosos brasileiros da Maçonaria e do seu simbolismo foi o Ir.’. Theobaldo Varoli Filho, autor da trilogia Curso de Maçonaria Simbólica, em três volumes — Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom.

No segundo volume, dirigido ao Companheiro, no Cap. XIX ele discorre sobre o Tetragrama, apresentando grande riqueza de informações.

No seu livro ele ocupa duas páginas abordando o Tetragrama e as razões de ele estar relacionado ao Grau de Companheiro Maçom. E aqui aparece mais uma variante sobre a colocação do Tetragrama: o Ir.’. Varoli Filho apresenta, já ao final dos seus comentários, o Tetragrama no interior de um Delta, acompanhado do seguinte comentário:

“Nos ritos maçônicos de tendência mística o mais acertado é usar o Tetragrama hebraico dentro do Triângulo do Oriente, em vez do Olho Onividente.” (Varoli Filho, 1976, pág. 76)

Não serão reproduzidas as passagens das diferentes versões do Ritual no tocante às representações e comentários referentes a cada uma das quatro letras que formam a Palavra Sagrada, porém reproduzimos sim as considerações do Ir.’. Varoli Filho, já que ele as apresenta e comenta sob o título “O Tetragrama na Generalidade das Instruções Maçônicas”, o que facilita o nosso trabalho.

O Ir.’. Varoli Filho busca orientar o Companheiro Maçom sobre como ele deverá se organizar (dentro de sua condição de criatura feita à semelhança do Ser Divino e Criador e dentro também dos seus limitados poderes), onde o grande propósito é fazê-lo manter-se sempre no caminho da Luz.

O Ir.’. Varoli Filho usa o termo “Grande Geômetra”. Para quem não está acostumado com essa expressão, ela também é utilizada na Maçonaria para representar a força criadora suprema que organiza o Caos e governa o universo com Ordem, Justiça e Retidão — é uma das designações para o Grande Arquiteto do Universo. A utilização deste termo demonstra a sua ligação com a letra “G”, que simboliza a Geometria como fundamento primordial de todas as artes, além da presença divina na criação.

Para nos familiarizarmos melhor com a ideia de que já vimos aqui vários nomes atribuídos ou que servem para representar Deus — e outros nomes virão no decorrer desta série —, tenhamos em mente que no Cap. I foi citada por Alan Unterman, quando da sua descrição do verbete Tetragrama, a seguinte frase:

“De todos os nomes de Deus, só o Tetragrama é considerado um nome verdadeiro.”

Na sequência veremos a fórmula encontrada pelo Ir.’. Varoli Filho para melhor explicar ao Companheiro Maçom como ele deverá internalizar esses ensinamentos baseados nos significados respectivos de cada uma das quatro letras que compõem o Tetragrama.

Assim:

O GRANDE GEÔMETRA ou o GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO

IOD (י) – Ele É, PENSA, QUER E MANDA. É o PRINCÍPIO CRIADOR.

O COMPANHEIRO MAÇOM:Eu sou, penso com sabedoria, esclareço minhas dúvidas e quero realizar. Não me entrego a ideias destruidoras ou inúteis. (PRINCÍPIO PENSANTE)

O GRANDE GEÔMETRA...

HE (ה) – Dele derivou o sopro que animou a criatura, a própria vida. Dele emanou a irradiação vital e existencial. É o VERBO.

O COMPANHEIRO MAÇOM:Assim, quero inventar, planejar, criar tudo quanto possa melhorar as condições da humanidade e investigar a verdade, para o Progresso e o Bem Geral. (INVENÇÃO)

O GRANDE GEÔMETRA...

VAU (ו) – Ele realiza o que pensa, pois é Senhor de todas as Regras do Trabalho. Ele faz do abstrato o concreto, a relação de causa e efeito. É ATIVIDADE OU TRABALHO.

O COMPANHEIRO MAÇOM:Meu grau maçônico representa o TRABALHO, que é a ATIVIDADE conjugada com as regras, pois não há trabalho útil sem aprendizado e regras. Recebi de meu Venerável a Espada ou Gládio. Aprendi, assim, que a nobreza pertence aos que trabalham e não à suposta dignidade das cortes. E meu trabalho deve ser útil ao próximo. Do trabalho devo viver, para meu sustento e dos meus dependentes. Não lançarei semente em terra vã. (DIREÇÃO)

O GRANDE GEÔMETRA...

HE (ה) – Ele consegue o resultado igual àquilo que Ele quis e emanou. Só Ele consegue igualar o Verbo à Realização. Daí o fonema He se repetir no final. É a SUBSTÂNCIA, o CONCRETO, A OBRA REALIZADA.

O COMPANHEIRO MAÇOM:Meu fim é a OBRA DA VIDA. Meu lema é chegar sempre a obras realizadas. Mesmo que eu não termine meus planos, sempre comecei a Obra, com os dons que me concedeu o Grande Geômetra. E, para mim, a verdadeira Obra da Vida é a realização da EUBIOSE(5), o melhor para a humanidade. (EXECUÇÃO)

Aí temos o quaternário: PRINCÍPIO, VERBO, ATIVIDADE e SUBSTÂNCIA.(Varoli Filho, 1976, págs. 75–76)

UMA VARIEDADE DE NOMES PARA UM NOME SÓ: O TETRAGRAMA

Daquilo que vimos no Capítulo I — e agora nos referindo mais uma vez à frase de Jules Boucher, quando comentou que os estudos sobre o Tetragrama Sagrado são muitos e variados e que são muito confusos — podemos dizer que a confusão faz jus plenamente ao sentido que ela carrega consigo de “misturar coisas diversas”.

A variedade de nomes existentes, já mencionada anteriormente, é produto dos acontecimentos de vários milênios, nos quais pesam fatores do tipo:

reverência profunda (vide o Terceiro Mandamento, “não tomar o nome do Senhor em vão”, Êxodo 20:7);

tradição histórica do povo judeu: os escribas, ao lerem as Escrituras, ao se depararem com o Tetragrama, pronunciavam Adonai (Meu Senhor) como substituição;

com o tempo, as vogais pronunciadas em Adonai foram adicionadas às consoantes de YHWH, criando nomes híbridos;

na tradição judaica, em linguagem coloquial, passou-se a usar Hashem (O Nome), omitindo a forma direta do nome pessoal de Deus;

na tradução grega da Bíblia Hebraica (Septuaginta), YHWH foi substituído por Kyrios (Senhor), consolidando a substituição;

com o passar dos séculos sem que o nome YHWH fosse pronunciado, sua vocalização original foi perdida.

CONTINUA...

NOTAS

Estrela Flamejante (4):A Estrela Flamejante (ou Flamígera) é o símbolo central e luz-guia do grau de Companheiro na Maçonaria, representando a estrela pentagonal (cinco pontas) com a letra “G” ao centro. Ela simboliza a inteligência humana, a sabedoria divina, a vitória do espírito sobre a matéria e os cinco sentidos. (Fonte: Google)

EUBIOSE (5):A Eubiose é uma escola iniciática e doutrina espiritualista fundada em 1924, no Brasil, por Henrique José de Souza, com o objetivo de promover o aprimoramento físico, mental e espiritual. Conhecida como a “ciência da vida” ou “bem-viver”, busca harmonizar o ser humano com as Leis Universais, unindo Filosofia, Religião e Ciência. (Fonte: Google)




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog